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Se descobrir mulher, uma história oceânica

Mis à jour : févr. 7

No Instagram uma vez postei uma foto do mar e um texto sobre ser estrangeira em pleno verão. Um dos meus períodos mais difíceis de viver por aqui. Nessa época do ano, a condição de imigrante me invade com uma força brutal. Entenda-se por condição “natureza, ou estado de, ou qualidade de”, no significado mais genuíno da palavra. Sou brasileira, católica, branca, heterossexual, magra, estudada e bonitinha. Minha condição é basicamente bem positiva pro balaio dos imigrantes que aqui estão.  

Nesse texto, falei da importância do mar na minha vida. Da descoberta dessa importância, que somente aconteceu porque atravessei o Oceano de vez, há 8 anos. O mesmo Oceano da foto publicada, que era na verdade uma foto da costa sudoeste da França, a minha preferida. Aliás, antes de escrever essas linhas nunca tinha parado pra pensar na obviedade dessa preferência oceânica.



Se eu gosto de voltar nesse assunto é porque ele me revira. Impressionante (sem piadas, Julia). Me impressiona precisar fazer uma travessia geográfica tão imensa para se descobrir; que o ser humano precise de tanto distanciamento para encontrar o essencial. 

Talvez, o mesmo também teria acontecido se eu tivesse escolhido ficar entre a Osvaldo Aranha e a Nilo Peçanha para sempre. Quem sabe. Talvez.  

Mas, a descoberta da Julia litorânea aconteceu aqui. Por aqui me descobri brasileira. O que, na visão da pessoa francesa, é sinônimo de litorânea. Mas, nos tempos da Osvaldo, eu era muito mais “céu sol sul” que Canarinho. Era. Porque, putz, como é bom poder se informar, reaprender a história, sentir aquela ponta de remorso, e criar consciência do significado de um hino como o Rio-Grandense!

Claro, um certo bairrismo sempre permanece mesmo que “de canto", como se diz no Portinho. Sei lá, o Grêmio...eu nem tenho acompanhado, mas o povo do futebol daqui ama o Ronnie, né. Tem aquele pôr do sol, mais bonito que o do Peloponeso - caraca, sempre quis encaixar essa frase num texto! E principalmente o afeto linguístico. Obvio e definitivo. 



Sobre as descobertas ainda, por aqui também me descobri mulher. Cansativo e meio mala ficar citando Simone de Beauvoir, até porque a bem da verdade é: não acabei de ler O Segundo Sexo. Se alguém conseguiu, alias, chapeau.

O fato é, a gente se transforma em mulher. Se descobre mulher.

Porque com 5 ou 10 anos de idade a gente sabe que os meninos, no geral, têm um zizi e as meninas uma zezette (esses apelidinhos franceses imbeciloides são muito fofis). Depois, a gente menstrua, chora uns três dias sem parar - isso na menarca apenas. Passa mil perrengues, muitas vezes de salto e odiando a nossa imagem, o nosso próprio corpo. Em diferentes graus de ódio, mas odiando. Sofre do sexismo que a gente mesma alimenta. E um dia a gente descobre a realidade crua de ser essa potência. E é tipo, WOW. Em todos sentidos. Nem precisa ir muito longe num papo cirandeira, fases da lua, sagrado feminino e flor de lótus. Somos a própria natureza. 



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Só que antes de assumir essa força, é preciso entender o que ela provoca ao nosso redor. As reações são diversas. A opressão, a mais comum.

Eu precisei me descobrir opressora. Admitir que eu fazia parte dessas pessoas que semeiam o sexismo pois o controle parece a única saída. Afinal...afinal!

Não que isso aconteça de maneira consciente. Sempre fui independente, decidida, cheia de convicções e com grande potencial para assumir essa bomba - eu mesma. Cresci com vários exemplos de mulheres incrivelmente incontroláveis ao meu redor. Minha linhagem feminina tem um quê de feminista-sem-trégua-pra-macho bem elevado. Mas, mesmo elas, de uma maneira ou de outra, acabaram sucumbindo ao patriarcado. 

A gente luta todo dia para não enxergar nossas sombras. A rotina, os códigos sociais, a correria, as boas maneiras, a diplomacia, "o que os outros vão pensar?", as redes sociais, a maquiagem, a falta de tempo, a falta de silêncio, o cansaço. A opressão. A falta de solidão voluntária. Tudo ao nosso redor facilita a permanência na superfície.



Ao admitir e conviver com meu próprio sexismo, nomeando fatos e atitudes como sendo sexistas, dei o primeiro passo para me libertar e me construir feminista. Não é mole. Barra pesada esse negócio de saber que tudo que a gente repudia, ou diz repudiar, um dia esteve com a gente, dentro da gente. E o pior, segue ali, procurando uma brechinha micro para poder voltar. Sabe racismo? Igualzinho.  

Mas, uma hora ou outra, a gente para de relativizar e vira feminista. Um lance quase instantâneo mesmo. Pode parecer violento. Porque entre parar de relativizar, se dispor à desconstrução diária e se transformar naquela pessoa quase radical, é como não deixar a água passar do umbigo. 

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Só que o feminismo nunca matou ninguém (repetir como um mantra 3X em voz alta). Nunca, na história da humanidade, mulheres oprimiram homens - digo isso em termos de nação, deixemos de lado o caso do amigo do amigo agredido pela esposa. Por isso, não precisa ter pudor em se dizer feminista e nem medo que algumas convicções criem algum tipo de repulsa masculina. Pelo contrario, se é para se relacionar com macho tóxico, melhor lidar com a solidão compulsória.

Digo isso porque realmente acredito que ser encalhada é uma condição imposta pela sociedade machista...

Obvio. Isso me parece tão claro agora...


No auge dos meus 31 anos, nunca passou pela minha cabeça me preocupar com a ideia de ficar solteirona...Nunca perdi dois minutos sequer pensando que o tempo passa e com ele o sonho do vestido branco fica cada vez mais distante...

Eu? Malucona, pirando o cabeção, fazendo altos cálculos pra ver como fazer para ter filhos antes dos 40? Que bobagem...jamé!



Afe. Vou ali fazer uma terapia de grupo virtual com as minhas amigas desconstruídas e já volto. 



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