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Egocentrismo compartilhado

Escrever, o que de mais egocêntrico tenho. Pois no meu escrever acabo falando de mim. A faculdade de jornalismo veio pra me decepcionar e tentar me mostrar que o eu não era sujeito. Acabei não trabalhando na área. A vontade de escrever permaneceu. E essa ânsia de compartilhar vivências, sentimentos e questionamentos vinha aumentando ultimamente.


Aproveitando então a previsão do fado sensato Caio Braz, que aposta no retorno dos blogs tipo diário em 2020, resolvi voltar a fazer algo que me traz tanto bem - eu avisei que essa era uma atitude bem egocêntrica. Da era do papel de carta aos SMS com caracteres limitados, coloco na escrita tudo aquilo que algum tipo de puder me impede de dividir oralmente. 


Mas, por que um blog ligado ao site de uma marca ?

Desde que o feminismo (buh!) entrou na minha vida, tem sido difícil não me expressar de maneira mais ampla sobre o assunto. Sigo ali, compartilhando um story ou outro no Instagram. Tentando encaixar minha visão numa discussão. E quanto mais as pessoas insistem em julgar essa posição, no auge da inércia do pré-conceito, mais vontade de me expressar tenho. Ativistas, como consigo entender vocês hoje!



Em teoria, parece que não deveríamos misturar "tanto no pessoal, quanto no profissional". Ninguém precisaria saber o que eu penso ou sinto para conhecer ou aderir ao conceito da marca. Até porque a Unune nasceu na França e estou escrevendo em português, o que parece não fazer o mínimo sentido. Será mesmo? 


A Unune é a minha marca. Uma marca de roupas infantis sem gênero. Uma maneira que encontrei de contribuir para a igualdade. Somos pessoas múltiplas. A Julia de hoje apenas existe por causa das várias outras que se somaram ao longo desses quase 32 anos - rolou umas subtrações também, claro. Isso pra dizer que ta tudo conectado. Serião!  




The Secret não é meu forte, tô querendo mesmo é justificar a hospedagem do meu blog e me controlando pra não escrever sobre todos os mil assuntos que passam pela minha cabeça a-gora....Mas, falando em conexão, pra quem não sabe, a idéia de lançar a Unune veio depois de ter trabalhado questões de igualdade e feminismo com meu coletivo artístico. Na época, a gente acabou se dando conta de que teríamos um público restrito de pessoas, basicamente mulheres, também sensíveis a esses questionamentos. Como isso não nos interessava muito, acabamos deixando nosso engajamento inicial de lado.


Taurina (apegada ao signo porque sim), não fiquei muito convencida dessa desistência. E, ao mesmo tempo que o projeto foi perdendo força, ja tinha começado a trabalhar com uma amiga designer que me propôs de construirmos algo juntas. Entre o vírus do empreendedorismo (não acredito que escrevi isso) e minha vontade de fazer algo concreto pela igualdade, surgiu a Unune. Em francês, contração de um+uma (un+une).




E por que uma marca infantil? Se quisermos evoluir de fato, precisamos investir na educação das novas gerações. Bem óbvio né. Mas na prática, minha gente...basta ver a moda das gender reveal parties. Rosa menina, azul menino, sabe? Então, esse é o ponto! A construção das normas ligadas ao gênero vem do berço, ou melhor, bem antes dele. Não tem nada a ver com o sexo biológico e também não é uma questão de opinião. E, justamente, por ser uma construção social, não é fixo. As normas de gênero evoluíram ao longo dos séculos, nas diferentes formas de sociedade, e continuam evoluindo. Retrocedem algumas vezes também. E, apesar de todo avanço (minha bolha é tão fofis que quase esqueço da Damares), ainda educamos as crianças de maneira bastante sexista.




Além disso, roupas têm tudo a ver com educação. Roupas não são apenas um pedaço de pano que necessitamos (ha controvérsias) para viver em sociedade. Quando nos vestimos também estamos transmitindo uma mensagem. Por isso a importância de não somente "neutralizar" a moda infantil, propondo peças unissex, mas principalmente de quebrar paradigmas, invertendo os papéis atribuídos a cada gênero. 




Esse blog tem uma relação direta com os meus engajamentos e os valores que me inspiraram a criar Unune. Na versão francesa, a ideia é abrir espaço para uma troca sobre essas questões de igualdade e educação. Por aqui, com certeza escreverei sobre outros assuntos. Até porque escrever na língua materna tem um outro sabor. Mesmo sendo bilíngue, com maior orgulho do meu français, releio os textos 500 vezes e acabo achando que falta um borogodó na escrita. Sem contar a síndrome da impostora que bate legal, nível hard!


Saibam que todos meus questionamentos, dos mais bobos aos mais densos, terão, no fundo, uma reflexão ligada ao assunto. Chato? Murrinha? Radical? Como quiserem.


Se tem uma coisa que aprendi com o feminismo foi: uma vez que a pessoa avança, fica impossível voltar uma casa. As vezes é muito cansativo ser assim mesmo. Várias situações cotidianas eram mais simples quando eu aceitava e contribuia para a perpetuação da sociedade machista. A ignorância - ou a condição da pessoa que não tem conhecimento da existência ou da funcionalidade de algo, pode ser bem confortável. Dá uma trabalheira evoluir, tem que ter disposição, viu. Mas somente evoluindo e percebendo a nossa própria evolução que a gente consegue não perder a esperança na humanidade. 



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